Terça-feira

Sozinho n. 103

A poesia nos filmes



Bom, conversando com amigos sobre referências cinematográficas poéticas, acabamos percebendo que a presença da poesia não é assim tão intensa no cinema. Abaixo fiz uma lista dos filmes que conheço que abordam o assunto ou que acabaram se tornando o assunto, já que algumas películas exalam poesia, caso da maioria dos filmes de Andrei Tarkovski, cineasta russo, filho de poeta, que impôs aos seus títulos um lirismo sem igual. Outro grande diretor que conseguiu fazer de seus filmes poesia foi Federico Fellini. E, claro, há muitos outros... A lista abaixo tenta criar um caminho para os estetas, mas é só um começo, sem uma ordem definida de preferência... É bom frisar que, por exemplo, "Além da linha vermelha" não é um poema e nem é baseado na vida de um escritor, mas é tão lírico que se tornou uma verdadeira poesia visual.
Bom proveito.

Um anjo em minha mesa (1990) - Jane Campion
Morte em Veneza (1971) - Luchino Visconti
A última vida no universo (2003) - Pen-Ek Ratanaruang
Carrington - Dias de paixão (1995) - Christopher Hampton
Wilde - O primeiro homem moderno (1997) - Brian Gilbert
O amante (1992) - Jean-Jacques Annaud
Stalker (1979) - Andrei Tarkovski
A perda da inocência (1999) - Mike Figgis
Além da linha vermelha (1998) - Terrence Malick
O ano passado em Marienbad (1961) - Alain Resnais
As três estações (1999) - Tony Bui
Luzes da cidade (1931) – Charles Chaplin
Assédio (1998) - Bernardo Bertolucci
Amarcord (1973) - Federico Fellini
Bagdá Café (1987) - Percy Adlon
A última sessão de cinema (1971) - Peter Bogdanovich
Betty Blue (1986) - Jean-Jacques Beineix
Asas do desejo (1987) - Wim Wenders
Um cão andaluz (1928) – Luis Buñuel
Primavera, verão, outono, inverno, primavera (2003) - Ki-duk Kim
Hiroshima, meu amor (1959) - Alain Resnais
Daunbailó (1986) - Jim Jarmusch
La luna (1979) - Bernardo Bertolucci
A fonte da vida (2006) - Darren Aronofsky
O sétimo selo (1957) - Ingmar Bergman
Aurora (1927) – F. W. Murnau
Maurice (1987) – James Ivory
Koyaanisqatsi - Uma vida fora de equilíbrio (1982) - Godfrey Reggio

Sozinho Com Todo Mundo

a carne cobre o osso
e eles colocam uma mente
ali dentro e
algumas vezes uma alma,
e as mulheres quebram
vasos contra a parede
e os homens bebem
demais
e ninguem acha o
escolhido
mas continuam
procurando
rastejando pra dentro e pra fora
das camas.
carne cobre
o osso e
carne procura
por mais que
carne.
não há chance
alguma:
nós estamos todos presos
por um destino
singular.
ninguem nunca encontra
o escolhido.
os esgotos da cidade enchem
os ferros-velhos enchem
os hospícios enchem
os hospitais enchem
os cemitérios enchem
nada mais
enche.
Charles Bukowski
(O amor é um cão dos diabos)

Sou eu

Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,

Espécie de acessório ou sobressalente próprio,

Arredores irregulares da minha emoção sincera,

Sou eu aqui em mim, sou eu.

Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.

Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.

Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.


E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconseqüente,

Como de um sonho formado sobre realidades mistas,

De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,

Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.


E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,

Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,

De haver melhor em mim do que eu.


Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,

Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,

De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,

De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,

De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.


Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,

Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,

De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —

A impressão de pão com manteiga e brinquedos

De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,

De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,

Num ver chover com som lá fora

E não as lágrimas mortas de custar a engolir.


Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,

O emissário sem carta nem credenciais,

O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,

A quem tinem as campainhas da cabeça

Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.


Sou eu mesmo, a charada sincopada

Que ninguém da roda decifra nos serões de província.


Sou eu mesmo, que remédio! ...

Fernando Pessoa

Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?


Ferreira Gullar 

(Na Vertigem do Dia)

Biografia do Orvalho - 11

A maior riqueza do homem é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito.
Não aguento ser apenas um sujeito que abre
portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora,
que aponta lápis, que vê a uva etc. etc.
Perdoai.
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.
Manoel de Barros
(Retrato do artista quando coisa)

(sem título)

fez por ali um altar do corpo;
meia lua de unha, primeiro dente-de-leite,
pentelhama de diferentes damas, foi juntando,

e amor não veio

desaprendeu do querer alguns ritos
botar a mão no fogo sem saber que queima
chorar o leite derramado sem ter se fartado
desejar jamais jamais jamais a mulher do próximo

e amor não veio

viciando os passos aos becos e embrutecendo as mãos
encomendou o desejo e pagou em muitas prestações
de noites insones, de nó na garganta, de tranquilizantes

e o amor não veio

Derivou de delírio em delírio,
corrompeu-se,
perdeu-se,
danou-se,

e o amor o desprezou como a lua solene
ao cão louco que uiva e perambula
sem um osso qualquer que lhe contente

e por fim

depois de ter vencido furioso
o lobo que lhe habitava em segredo
rendeu-se a uns afagos sem mistério
de um outro que também estava em desterro

descuidado de amar e do amor
e de toda a embriaguez que fere a carne
ergueu em suspensões de intensa altura
o espírito em chama pura libertado

Assionara Sousa

Poema de Sete Faces

Quando nasci, um anjo torto

desses que vivem na sombra

disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.


As casas espiam os homens

que correm atrás de mulheres.

A tarde talvez fosse azul,

não houvesse tantos desejos.


O bonde passa cheio de pernas:

pernas brancas pretas amarelas.

Para que tanta perna, meu Deus,

pergunta meu coração.

Porém meus olhos

não perguntam nada.


O homem atrás do bigode

é sério, simples e forte.

Quase não conversa.

Tem poucos, raros amigos

o homem atrás dos óculos e do bigode.

 

Meu Deus, por que me abandonaste

se sabias que eu não era Deus,

se sabias que eu era fraco.

 

Mundo mundo vasto mundo

se eu me chamasse Raimundo

seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo mundo vasto mundo,

mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer

mas essa lua

mas esse conhaque

botam a gente comovido como o diabo.


Carlos Drummond de Andrade

(Alguma poesia)

XIX

Não tem mais lar o que mora em tudo.

Não há mais dádivas

Para o que não tem mãos.

Não há mundos nem caminhos

Para o que é maior que os caminhos

E os mundos.

Não há mais nada além de ti.

Porque te dispersaste...

Circulas em todas as vidas

Pairas sobre todas as coisas

E todos te sentem

Sentem-te como a si mesmos

E não sabem falar de ti.


Cecília Meireles

(Cânticos)

Prelúdio II

Tateio. A fronte. O braço. O ombro.

O fundo sortilégio da omoplata.

Matéria-menina a tua fronte e eu

Madurez, ausência nos teus claros

Guardados.


Ai, ai de mim. Enquanto caminhas

Em lúcida altivez, eu já sou o passado.

Esta fronte que é minha, prodigiosa

De núpcias e caminho

É tão diversa da tua fronte descuidada.


Tateio. E a um só tempo vivo

E vou morrendo. Entre terra e água

Meu existir anfíbio. Passeia

Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:

Noturno girassol. Rama secreta.


Hilda Hilst

(Memória, júbilo, noviciado da paixão)

O poeta ficou cansado

Pois não quero mais ser Teu arauto.

Já que todos têm voz,

porque só eu devo tomar navios

de rota que não escolhi?

Porque não gritas, Tu mesmo,

a miraculosa trama dos teares

já que a tua voz reboe

nos quatro cantos do mundo?

Tudo progrediu na terra

e insistes em caixeiros viajantes

de porta em porta, a cavalo!

Olha aqui, cidadão,

repara, minha senhora,

neste canivete mágico:

corta, saca, fura

é um faqueiro completo!

Ó Deus,

me deixa trabalhar na cozinha,

nem vendedor nem escrivão

me dixa fazer Teu pão.

Filha, diz-me o Senhor,

eu só como palavras


Adélia Prado

(Oráculos de Maio)