Terça-feira

Sozinho n. 102

Feliz Natal!

Minha mensagem vem bem ao estilo Tim Burton. E serve como papel de parede!



Espero que 2010 seja tão bom quanto foi 2009, e melhor ainda (porque sempre podemos ir adiante). Espero que todos consigam comprar suas casas, seus carros, que todos passem no vestibular, que todos consigam acabar a faculdade, que todos arrumem um par ou se separem, se a tampa não couber mais. Que todos paquerem, riam, chorem.... que todos possam se sentir felizes, um pouco realizados e, mais importante, que todos possam olhar adiante e dizer: sim, é por aqui que devo ir. Que todos encontrem suas rotas em 2010. Que todos cheguem a algum lugar. E que todos se percam um pouco, só para se encontrem nos braços de alguém e nem importa se esse alguém for a Gisele Bündchen, o Zulu ou a mãe.
Mais importante: que todos possam repartir carinho, sempre!!!

Feliz Natal!
Do cara que está sozinho, mas com todo mundo.

Sexta-feira

Sozinho n. 101

O que me emociona também te emociona?



Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente)
A Carlos Heitor Cony


Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

Thiago de Mello
Santiago do Chile, abril de 1964

Quarta-feira

Sozinho n. 100


Canto da estrada aberta

A pé e de coração leve
Eu enveredo pela estrada aberta.
Saudável, livre o mundo à minha frente,
À minha frente o longo atalho pardo
Levando-me aonde eu queira.

Daqui em diante não peço mais boa sorte.
Boa sorte sou eu.
Daqui em diante não lamento mais.
Não transfiro, não careço de nada;
Nada de queixas atrás das portas,
De bibliotecas, de tristonhas críticas;
Forte e contente vou eu
Pela estrada aberta.

(Walt Whitman)

Segunda-feira

Sozinho n. 99

La Belle Persone



Estou cada dia me rendendo mais ao charme do cinema de Christophe Honoré. Desde Em Paris, esse diretor só vem melhorando filme a filme. Canções de Amor foi uma das melhores películas que vi ano passado e acabo de passar, emocionado, por La Belle Persone, um enigmático panorama de uma turma de franceses amigos de escola. Há romance, tragédia, traições, cumplicidades, tudo captado em belíssimos closes que ressaltam, em meio a pouca maquiagem, uma abundância de vida que Honoré capta com delicadeza.
As músicas, que povoavam todo seu trabalho anterior, foram reduzidas a uma (assim como "Em Paris"). No entanto, a execução da faixa por Grégoire Leprince-Ringuet emociona, ainda mais com o acontecimento desencadeado por ela.

Quinta-feira

Sozinho n. 98

Lua Nova (de novo)

O que dizer?... ... Que o filme é ruim, todo mundo já sabe. Que é tão ruim quanto o primeiro, idem. Mas porque será que eu quero ver de novo? E de novo. E de novo.
Vai ver que eu curto historinhas-romeu-e-julieta...

Deve ser isso.

Definitivamente.

E a cena dos dois mortos no fundo do oceano poderia ter durado um pouco mais, de tão bonita que é.

Sozinho Com Todo Mundo

a carne cobre o osso
e eles colocam uma mente
ali dentro e
algumas vezes uma alma,
e as mulheres quebram
vasos contra a parede
e os homens bebem
demais
e ninguem acha o
escolhido
mas continuam
procurando
rastejando pra dentro e pra fora
das camas.
carne cobre
o osso e
carne procura
por mais que
carne.
não há chance
alguma:
nós estamos todos presos
por um destino
singular.
ninguem nunca encontra
o escolhido.
os esgotos da cidade enchem
os ferros-velhos enchem
os hospícios enchem
os hospitais enchem
os cemitérios enchem
nada mais
enche.
Charles Bukowski
(O amor é um cão dos diabos)

Sou eu

Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,

Espécie de acessório ou sobressalente próprio,

Arredores irregulares da minha emoção sincera,

Sou eu aqui em mim, sou eu.

Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.

Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.

Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.


E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconseqüente,

Como de um sonho formado sobre realidades mistas,

De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,

Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.


E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,

Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,

De haver melhor em mim do que eu.


Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,

Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,

De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,

De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,

De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.


Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,

Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,

De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —

A impressão de pão com manteiga e brinquedos

De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,

De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,

Num ver chover com som lá fora

E não as lágrimas mortas de custar a engolir.


Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,

O emissário sem carta nem credenciais,

O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,

A quem tinem as campainhas da cabeça

Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.


Sou eu mesmo, a charada sincopada

Que ninguém da roda decifra nos serões de província.


Sou eu mesmo, que remédio! ...

Fernando Pessoa

Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?


Ferreira Gullar 

(Na Vertigem do Dia)

Biografia do Orvalho - 11

A maior riqueza do homem é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito.
Não aguento ser apenas um sujeito que abre
portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora,
que aponta lápis, que vê a uva etc. etc.
Perdoai.
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.
Manoel de Barros
(Retrato do artista quando coisa)

(sem título)

fez por ali um altar do corpo;
meia lua de unha, primeiro dente-de-leite,
pentelhama de diferentes damas, foi juntando,

e amor não veio

desaprendeu do querer alguns ritos
botar a mão no fogo sem saber que queima
chorar o leite derramado sem ter se fartado
desejar jamais jamais jamais a mulher do próximo

e amor não veio

viciando os passos aos becos e embrutecendo as mãos
encomendou o desejo e pagou em muitas prestações
de noites insones, de nó na garganta, de tranquilizantes

e o amor não veio

Derivou de delírio em delírio,
corrompeu-se,
perdeu-se,
danou-se,

e o amor o desprezou como a lua solene
ao cão louco que uiva e perambula
sem um osso qualquer que lhe contente

e por fim

depois de ter vencido furioso
o lobo que lhe habitava em segredo
rendeu-se a uns afagos sem mistério
de um outro que também estava em desterro

descuidado de amar e do amor
e de toda a embriaguez que fere a carne
ergueu em suspensões de intensa altura
o espírito em chama pura libertado

Assionara Sousa

Poema de Sete Faces

Quando nasci, um anjo torto

desses que vivem na sombra

disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.


As casas espiam os homens

que correm atrás de mulheres.

A tarde talvez fosse azul,

não houvesse tantos desejos.


O bonde passa cheio de pernas:

pernas brancas pretas amarelas.

Para que tanta perna, meu Deus,

pergunta meu coração.

Porém meus olhos

não perguntam nada.


O homem atrás do bigode

é sério, simples e forte.

Quase não conversa.

Tem poucos, raros amigos

o homem atrás dos óculos e do bigode.

 

Meu Deus, por que me abandonaste

se sabias que eu não era Deus,

se sabias que eu era fraco.

 

Mundo mundo vasto mundo

se eu me chamasse Raimundo

seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo mundo vasto mundo,

mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer

mas essa lua

mas esse conhaque

botam a gente comovido como o diabo.


Carlos Drummond de Andrade

(Alguma poesia)

XIX

Não tem mais lar o que mora em tudo.

Não há mais dádivas

Para o que não tem mãos.

Não há mundos nem caminhos

Para o que é maior que os caminhos

E os mundos.

Não há mais nada além de ti.

Porque te dispersaste...

Circulas em todas as vidas

Pairas sobre todas as coisas

E todos te sentem

Sentem-te como a si mesmos

E não sabem falar de ti.


Cecília Meireles

(Cânticos)

Prelúdio II

Tateio. A fronte. O braço. O ombro.

O fundo sortilégio da omoplata.

Matéria-menina a tua fronte e eu

Madurez, ausência nos teus claros

Guardados.


Ai, ai de mim. Enquanto caminhas

Em lúcida altivez, eu já sou o passado.

Esta fronte que é minha, prodigiosa

De núpcias e caminho

É tão diversa da tua fronte descuidada.


Tateio. E a um só tempo vivo

E vou morrendo. Entre terra e água

Meu existir anfíbio. Passeia

Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:

Noturno girassol. Rama secreta.


Hilda Hilst

(Memória, júbilo, noviciado da paixão)

O poeta ficou cansado

Pois não quero mais ser Teu arauto.

Já que todos têm voz,

porque só eu devo tomar navios

de rota que não escolhi?

Porque não gritas, Tu mesmo,

a miraculosa trama dos teares

já que a tua voz reboe

nos quatro cantos do mundo?

Tudo progrediu na terra

e insistes em caixeiros viajantes

de porta em porta, a cavalo!

Olha aqui, cidadão,

repara, minha senhora,

neste canivete mágico:

corta, saca, fura

é um faqueiro completo!

Ó Deus,

me deixa trabalhar na cozinha,

nem vendedor nem escrivão

me dixa fazer Teu pão.

Filha, diz-me o Senhor,

eu só como palavras


Adélia Prado

(Oráculos de Maio)