Sem poesia num raso de muitas pedras
Frio entendimento entre conflitos
A paz nunca acordar
Fim do dia no deserto de dentro
Única música
Brutas notas que conduzem
Todo o pensar
Distante alegria no inverno do sentimento
Negra Lua
Tosca lamparina para a noite
Da vida iluminar
Busca magia a revelar questionamento
Significado final
Completo juízo do que seja
Amar
Razão tardia que pensa feito ferida a sangrar
Sequer imagina que para o amor
Nunca um conjunto de regras
Irá encontrar
m_LG 12/08 (p/V.C.). Esta imagem, sem corte, pode ser vista aqui.
Quarta-feira
Sozinho n. 50
Sozinho n. 49
Antes que tudo se acabe, quero dizer que esse ano foi muito especial e que ele afirma que seu sucessor poderá ser ainda melhor, quando as raízes plantadas aqui aparecerão na superfície... finalemente. O ano das raízes some no pó. Um dia todos sumiremos nesse pó. Pó das horas, do tempo, de certos olhares.
Antes que tudo se acabe, quero começar algo novo nesse hoje, um novo que ultrapasse essa fronteira de calendários. Como ondas que vêm e vão, sem interrupção. Sem dores ou saudades. Quero saguir adiante.
E, antes que seja apenas passado, Cananéia, Marujá e Ilha Comprida...

Segunda-feira
Sozinho n.48
Ultimamente os dias têm sido por demais interessantes, graças aos bons filmes que andam pintando e, quanto mais o ano se aproxima do fim, mais coisas vão surgindo.
Tive uns três tipos de delírio com a fotografia fantástica de Christopher Doyle em "Invisible Waves", à altura do que ele havia feito em "A Última Vida no Universo". Depois, lembrei de "Na Natureza Selvagem" ao ver "The Go-Getter" ainda que, digamos, na contramão. Sem querer esbarrei em "Holding Trevor" e a experiência (um tanto gay) foi boa! E hoje assisti a "The Visitor" que apresenta um personagem com o qual me identifiquei logo na primeira cena. E, quando lá pelo fim do filme, ele diz que finge tudo e que nada tem importância: batata - esse sou eu - um fingidor! Já devidamente abençoado por Fernando Pessoa, claro... E fiquei a pensar o quanto eu era ou não gêmeo de Walter. No fim, o filme tem lá seus momentos, mas ficou mesmo no "meia-boca". O que restou foram esses pensamentos. Sim, sou mesmo um fingidor, mas não do tipo vazio como quem finge porque não tem nada para viver de fato. Eu finjo porque vivo, sim, tenho essa carapaça taciturna que a tudo encara e que me protege, para que eu possa olhar para a vida, para que eu possa sonhar... e ler... e escrever poemas...
Um brinde:
Autopsicografia
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
Fernando Pessoa
Sábado
Sozinho n. 47

Meu coração não te condena
Te absolve e te lamenta
Enquanto dissolve essa matéria
Em tua água lamacenta.
Meu coração não te sustenta
Antes, nem prende ou alimenta
Enquanto tenta gerar esse amor
Em transparente placenta.
Para que esse não te repreenda
Faz-se presença e se alenta
Fornece o líquido que arrefece
Transpõe a fronteira que desvenda.
Para que esse viva em tua senda
Em teu deserto que a luz se acenda
Me põe em teu colo e adormece
Na vida de sonho que não se ausenta.
m_LG 05/12/08 (p/ v.c.)
Muitas fotos legais como essa, aqui.
Sexta-feira
Sozinho n. 46
Sabe que eu nem lembrava que gostava tanto assim dos The Smiths. Agora, ouvindo, ouvindo e ouvindo... penso se essa banda que durou tão pouco (1984-1987) não foi o que de melhor produziu a década de 80. As canções, assim, 20 anos depois, continuam frescas, os arranjos muito bem produzidos não perderam-se no pastiche característico daquela década. Salve nosso grande bardo. Em homenagem à banda montei uma coletânea intitulada "Barbarism Begins at Home":
Quinta-feira
Sozinho n. 45
Dediquei mais um dia a esse poeta errante. Que grande poeta errante esse que consome minhas horas com versos tão perversos...

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Pau d‘Arco, 1901
Do livro "Eu"
e outro...
Eu, filho do carbono e do amoníaco,Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme - este operário das ruínas -
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos pra roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
Do livro "Eu"
Essa foto e muitas outras você pode encontrar no grupo do Flickr Forgotten Cemeteries and Graveyards, só não pode ter medo de fantasmas...
Segunda-feira
Sozinho n. 44
Conferi recentemente duas excelentes animações. A primeira vem do mestre Hayao Miyazaki que produziu alguns dos melhores desenhos já feitos como "A viagem de Chihiro", "A Princesa Mononoke" e "Meu Vizinho Totoro", entre outros. Ao que tudo indica, "Ponyo on Cliff by the Sea" terá grande distribuição no mercado americano pois Kathleen Kennedy (que trabalha com Steven Spielberg) assumiu a produção para a versão dublada em inglês, que contará com vozes de famosos como Matt Damon e Cate Blanchett, entre outros.. Assim, grandes chances de Miyazaki receber outra indicação ao Oscar de melhor animação (será sua terceira, ele que foi o vencedor em 2001 com Chihiro). Ponyo é uma princesa marinha (algo como uma sereia) que quer se transformar em criança para viver no penhasco a beira mar (do título do filme) junto com Sōsuke, um garotinho de 5 anos. Trata-se de uma bela fábula infantil, alinhada em sua temática a "Meu Vizinho Totoro". A obra foi praticamente toda realizada a mão, sendo que a água no filme foi criada com texturas de aquarela. Aqui no Brasil deve estrear somente em 2009.
Outra animação que assisti foi a fantasia lisérgica "Paprika" do diretor Satoshi Kon (de "Tokyo Godfather"). Excelente trabalho realizado em 2007. O filme, de temática adulta, aborda um mundo futurista onde estão ocorrendo problemas com os equipamentos que registram os sonhos das pessoas. Esse tema já foi abordado anteriormente em alguns filmes de ficção científica, como "Até o fim do mundo"de Win Wenders. Mas aqui, com animação, é possível embarcarmos nessa viagem completamente, muitas vezes sem saber diferenciar o que é sonho do que é realidade.
Sozinho Com Todo Mundo
e eles colocam uma mente
ali dentro e
algumas vezes uma alma,
e as mulheres quebram
vasos contra a parede
e os homens bebem
demais
e ninguem acha o
escolhido
mas continuam
procurando
rastejando pra dentro e pra fora
das camas.
carne cobre
o osso e
carne procura
por mais que
carne.
não há chance
alguma:
nós estamos todos presos
por um destino
singular.
ninguem nunca encontra
o escolhido.
os esgotos da cidade enchem
os ferros-velhos enchem
os hospícios enchem
os hospitais enchem
os cemitérios enchem
nada mais
enche.
Charles Bukowski
(O amor é um cão dos diabos)
Sou eu
Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.
Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.
E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconseqüente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.
E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.
Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.
Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —
A impressão de pão com manteiga e brinquedos
De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,
Num ver chover com som lá fora
E não as lágrimas mortas de custar a engolir.
Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.
Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.
Sou eu mesmo, que remédio! ...
Fernando Pessoa
Traduzir-se
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?
Ferreira Gullar
(Na Vertigem do Dia)
Biografia do Orvalho - 11
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito.
Não aguento ser apenas um sujeito que abre
portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora,
que aponta lápis, que vê a uva etc. etc.
Perdoai.
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.
Manoel de Barros
(Retrato do artista quando coisa)
(sem título)
meia lua de unha, primeiro dente-de-leite,
pentelhama de diferentes damas, foi juntando,
e amor não veio
desaprendeu do querer alguns ritos
botar a mão no fogo sem saber que queima
chorar o leite derramado sem ter se fartado
desejar jamais jamais jamais a mulher do próximo
e amor não veio
viciando os passos aos becos e embrutecendo as mãos
encomendou o desejo e pagou em muitas prestações
de noites insones, de nó na garganta, de tranquilizantes
e o amor não veio
Derivou de delírio em delírio,
corrompeu-se,
perdeu-se,
danou-se,
e o amor o desprezou como a lua solene
ao cão louco que uiva e perambula
sem um osso qualquer que lhe contente
e por fim
depois de ter vencido furioso
o lobo que lhe habitava em segredo
rendeu-se a uns afagos sem mistério
de um outro que também estava em desterro
descuidado de amar e do amor
e de toda a embriaguez que fere a carne
ergueu em suspensões de intensa altura
o espírito em chama pura libertado
Assionara Sousa
Poema de Sete Faces
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus,
pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
Carlos Drummond de Andrade
(Alguma poesia)
XIX
Não tem mais lar o que mora em tudo.
Não há mais dádivas
Para o que não tem mãos.
Não há mundos nem caminhos
Para o que é maior que os caminhos
E os mundos.
Não há mais nada além de ti.
Porque te dispersaste...
Circulas em todas as vidas
Pairas sobre todas as coisas
E todos te sentem
Sentem-te como a si mesmos
E não sabem falar de ti.
Cecília Meireles
(Cânticos)
Prelúdio II
Tateio. A fronte. O braço. O ombro.
O fundo sortilégio da omoplata.
Matéria-menina a tua fronte e eu
Madurez, ausência nos teus claros
Guardados.
Ai, ai de mim. Enquanto caminhas
Em lúcida altivez, eu já sou o passado.
Esta fronte que é minha, prodigiosa
De núpcias e caminho
É tão diversa da tua fronte descuidada.
Tateio. E a um só tempo vivo
E vou morrendo. Entre terra e água
Meu existir anfíbio. Passeia
Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:
Noturno girassol. Rama secreta.
Hilda Hilst
(Memória, júbilo, noviciado da paixão)
O poeta ficou cansado
Pois não quero mais ser Teu arauto.
Já que todos têm voz,
porque só eu devo tomar navios
de rota que não escolhi?
Porque não gritas, Tu mesmo,
a miraculosa trama dos teares
já que a tua voz reboe
nos quatro cantos do mundo?
Tudo progrediu na terra
e insistes em caixeiros viajantes
de porta em porta, a cavalo!
Olha aqui, cidadão,
repara, minha senhora,
neste canivete mágico:
corta, saca, fura
é um faqueiro completo!
Ó Deus,
me deixa trabalhar na cozinha,
nem vendedor nem escrivão
me dixa fazer Teu pão.
Filha, diz-me o Senhor,
eu só como palavras
Adélia Prado
(Oráculos de Maio)



