Quinta-feira

Sozinho n. 7

(O outro lado do Morro da Urca, Rio de Janeiro)


Nem falei da viagem...

Bom, a passagem pelo Rio de Janeiro foi das melhores, o tempo ajudou, ao menos no início. Pude ir ao Pão de Açúcar e assistir ao pôr-do-sol sobre a Cidade Maravilhosa. Não há foto que consiga captar tal beleza. Lá em cima, somente eu e os estrangeiros, parecia a torre de Babel: italianos, espanhóis, ingleses, franceses e alguns outros que não consegui reconher o idioma. A Urca é linda, Botafogo é linda, Copacabana é linda, a Lagoa é linda, o Aterro é lindo, o Jardim Botânico é lindo... Isso porque o feio nem quis ver... Apenas quando cheguei e quando fui embora passei por umas áreas realmente tristes.

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Fundo
Raízes
apenas
de uma vida
além de esquecida
seiva de lembranças
lágrimas do ontem
um mapa um tronco
rotas perdidas
tateando por pistas
galhos secos
pensamentos mortos
um dia passei por aqui
e passarei como folhas
que dançam ao passado
me jogarão flores
de uma vida
além de esquecida
sem frutos ou sementes
apenas
raízes
(marcio_LG 27/12/07)

Por mais alguns dias ficarei vagando nesse apartamento, completamente esquecido e esquecendo para, logo mais, me levantar e dizer "eu sou o senhor de meu castelo". No livro de meus dias escrevo minha própria história, enquanto observo a multidão que se contorce.

Terça-feira

Sozinho n. 6

(Um caminho que se perde no Jardim Botânico, Rio de Janeiro.)


Mais um ano que se vai... E com ele nossos desejos de realizações feitos para 2007. Mais uma estrada percorrida, um trecho, um caminho. Sim, 2007 já está na gaveta, seus calendários no lixo, os trabalhos todos arquivados. Sobraram apenas esses cartões, uns presentes e a saudade. É certo que tudo continua, como é certo que algumas coisas se romperam pra nunca mais. Aogra, basta-nos o olhar, a lembrança, o hoje desse ano já é ontem.


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Esqueci onde guardei seu cartão


Mais um caderno

Menos

E tantas contas

que não nos dão resultados


Onde procurar

Um aceno que não mais

Um olhar inédito

Onde há certeza


Punhados de folhas

Para alimentar

O passado em chamas

Não há canetas nem desejos


Escrivaninhas vazias

Mesas vazias

Pisos reluzentes

Dezembros


Janeiros


Cemitérios


(marcio_LG 25/12/07)


E estamos em férias. Nada de Faculdade, nada de trabalho, nada de obrigações, nada de almoços desagradáveis, nada de olhares congestionados, nada de congestionamentos, nada de pessoas chatas, nada de nada. Tudo o que somos...

Domingo

Sozinho n. 5

(O sempre belo MON - ou museu do olho -  de Curitiba)


Depois de um dia por demais comprometido, boa noite...


Hoje foi um bom domingo para assistir à Orquestra Sinfônica ineterpretando Carmen. E teve ainda uma visita ao museu para conferir os desenhos de Di Cavalcanti, entre muitas outras coisas. E o calor, acompanhando o tempo todo....

Mas passou...


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Amanhã ontem


Desenhando a atmosfera

com pigmentos imaginados

uma espécie de chuva

que nos lave daqui


Feito criançca

riscando com giz

uma vida errada


Um desenho

pobre menino

pensativo sobre o futuro

tão longe em meu passado


(márcio_LG 09/12/07)



Rápido chega o fim de mais um ano... Rápida corre nossa vida... E temos tempo para a arte? A arte somos nós, comcebidos divinamnete!

Quinta-feira

Sozinho n. 4

(Saindo do Rio de Janeiro, em direção a Petrópolis, num dia de chuva.)






... e outra!

Como vamos?

Chove muito aqui em Curitiba essa semana. Bom para ouvir Leonard Cohen.
As aulas acabaram... O agito se foi... Aqui estou eu...
Muitas leituras, alguns trabalhos, umas animações, um tanto de fotografias e um ou outro site para me deixar um pouco menos burro.
Espero que esteja dando certo!

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Uma noite como essa

Um tal fogo
consome desejos tolos
necessidades básicas
aquilo de humano
normal
aceitável

flamejante doutrina
cai por terra
feito ácido
alienígena

dê-me tua mão
sem medo
nem pressa
juntos passaremos

violinos
nuvens
bizarro coito
sorridente
morte



(marcio_LG 6/12/07)

Breve estaremos no Festival do Minuto, AnimaMundi e PUTZ. Todo o futuro para os animadores de plantão... E Deus salve as baratas!

Sozinho Com Todo Mundo

a carne cobre o osso
e eles colocam uma mente
ali dentro e
algumas vezes uma alma,
e as mulheres quebram
vasos contra a parede
e os homens bebem
demais
e ninguem acha o
escolhido
mas continuam
procurando
rastejando pra dentro e pra fora
das camas.
carne cobre
o osso e
carne procura
por mais que
carne.
não há chance
alguma:
nós estamos todos presos
por um destino
singular.
ninguem nunca encontra
o escolhido.
os esgotos da cidade enchem
os ferros-velhos enchem
os hospícios enchem
os hospitais enchem
os cemitérios enchem
nada mais
enche.
Charles Bukowski
(O amor é um cão dos diabos)

Sou eu

Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,

Espécie de acessório ou sobressalente próprio,

Arredores irregulares da minha emoção sincera,

Sou eu aqui em mim, sou eu.

Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.

Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.

Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.


E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconseqüente,

Como de um sonho formado sobre realidades mistas,

De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,

Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.


E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,

Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,

De haver melhor em mim do que eu.


Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,

Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,

De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,

De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,

De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.


Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,

Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,

De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —

A impressão de pão com manteiga e brinquedos

De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,

De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,

Num ver chover com som lá fora

E não as lágrimas mortas de custar a engolir.


Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,

O emissário sem carta nem credenciais,

O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,

A quem tinem as campainhas da cabeça

Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.


Sou eu mesmo, a charada sincopada

Que ninguém da roda decifra nos serões de província.


Sou eu mesmo, que remédio! ...

Fernando Pessoa

Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?


Ferreira Gullar 

(Na Vertigem do Dia)

Biografia do Orvalho - 11

A maior riqueza do homem é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito.
Não aguento ser apenas um sujeito que abre
portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora,
que aponta lápis, que vê a uva etc. etc.
Perdoai.
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.
Manoel de Barros
(Retrato do artista quando coisa)

(sem título)

fez por ali um altar do corpo;
meia lua de unha, primeiro dente-de-leite,
pentelhama de diferentes damas, foi juntando,

e amor não veio

desaprendeu do querer alguns ritos
botar a mão no fogo sem saber que queima
chorar o leite derramado sem ter se fartado
desejar jamais jamais jamais a mulher do próximo

e amor não veio

viciando os passos aos becos e embrutecendo as mãos
encomendou o desejo e pagou em muitas prestações
de noites insones, de nó na garganta, de tranquilizantes

e o amor não veio

Derivou de delírio em delírio,
corrompeu-se,
perdeu-se,
danou-se,

e o amor o desprezou como a lua solene
ao cão louco que uiva e perambula
sem um osso qualquer que lhe contente

e por fim

depois de ter vencido furioso
o lobo que lhe habitava em segredo
rendeu-se a uns afagos sem mistério
de um outro que também estava em desterro

descuidado de amar e do amor
e de toda a embriaguez que fere a carne
ergueu em suspensões de intensa altura
o espírito em chama pura libertado

Assionara Sousa

Poema de Sete Faces

Quando nasci, um anjo torto

desses que vivem na sombra

disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.


As casas espiam os homens

que correm atrás de mulheres.

A tarde talvez fosse azul,

não houvesse tantos desejos.


O bonde passa cheio de pernas:

pernas brancas pretas amarelas.

Para que tanta perna, meu Deus,

pergunta meu coração.

Porém meus olhos

não perguntam nada.


O homem atrás do bigode

é sério, simples e forte.

Quase não conversa.

Tem poucos, raros amigos

o homem atrás dos óculos e do bigode.

 

Meu Deus, por que me abandonaste

se sabias que eu não era Deus,

se sabias que eu era fraco.

 

Mundo mundo vasto mundo

se eu me chamasse Raimundo

seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo mundo vasto mundo,

mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer

mas essa lua

mas esse conhaque

botam a gente comovido como o diabo.


Carlos Drummond de Andrade

(Alguma poesia)

XIX

Não tem mais lar o que mora em tudo.

Não há mais dádivas

Para o que não tem mãos.

Não há mundos nem caminhos

Para o que é maior que os caminhos

E os mundos.

Não há mais nada além de ti.

Porque te dispersaste...

Circulas em todas as vidas

Pairas sobre todas as coisas

E todos te sentem

Sentem-te como a si mesmos

E não sabem falar de ti.


Cecília Meireles

(Cânticos)

Prelúdio II

Tateio. A fronte. O braço. O ombro.

O fundo sortilégio da omoplata.

Matéria-menina a tua fronte e eu

Madurez, ausência nos teus claros

Guardados.


Ai, ai de mim. Enquanto caminhas

Em lúcida altivez, eu já sou o passado.

Esta fronte que é minha, prodigiosa

De núpcias e caminho

É tão diversa da tua fronte descuidada.


Tateio. E a um só tempo vivo

E vou morrendo. Entre terra e água

Meu existir anfíbio. Passeia

Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:

Noturno girassol. Rama secreta.


Hilda Hilst

(Memória, júbilo, noviciado da paixão)

O poeta ficou cansado

Pois não quero mais ser Teu arauto.

Já que todos têm voz,

porque só eu devo tomar navios

de rota que não escolhi?

Porque não gritas, Tu mesmo,

a miraculosa trama dos teares

já que a tua voz reboe

nos quatro cantos do mundo?

Tudo progrediu na terra

e insistes em caixeiros viajantes

de porta em porta, a cavalo!

Olha aqui, cidadão,

repara, minha senhora,

neste canivete mágico:

corta, saca, fura

é um faqueiro completo!

Ó Deus,

me deixa trabalhar na cozinha,

nem vendedor nem escrivão

me dixa fazer Teu pão.

Filha, diz-me o Senhor,

eu só como palavras


Adélia Prado

(Oráculos de Maio)